Exclusiva para profissionais de saúde
Edição n.º 6 | setembro de 2026

De um médico a uma equipa de 15 especialistas

A evolução da Endocrinologia na ULS de Braga

Dr.ª Sílvia Saraiva
Dr.ª Sílvia Saraiva:
levar a diabetes ao topo da montanha
Uma iniciativa
Com o apoioA. Menarini Portugal
Editorial

De Braga ao Quilimanjaro, a Endocrinologia não tem fronteiras

Cátia Jorge, jornalista e editora Raio-X
Cátia JorgeJornalista
Editora Raio-X

Esta edição da newsletter MeetEndo levou-nos até ao Minho, onde tivemos oportunidade de conhecer o Serviço de Endocrinologia da ULS de Braga. Um serviço criado em 1981 pelas mãos do Dr. Altino Frias que, durante 14 anos, foi o único especialista a assegurar a prestação de cuidados endocrinológicos à população abrangida pelo então Hospital de S. Marcos.

Quatro décadas depois, as sementes deste trabalho germinaram num serviço diferenciado, agora na Unidade Local de Braga, com 15 especialistas, idoneidade formativa total e condições para a prática de investigação médica. Atualmente liderado pela Dr.ª Olinda Marques, o serviço tem uma área de influência de 1,2 milhões de pessoas e dispõe de consultas diferenciadas nas áreas da patologia endócrina na gravidez, obesidade, tumores neuroendócrinos e diabetes.

A par da atividade assistencial, o Serviço de Endocrinologia da ULS de Braga tem-se destacado também nas áreas do ensino e da investigação, numa aliança consolidada com a Escola de Medicina da Universidade do Minho e com o Centro Clínico Académico.

"Tenho uma equipa muito jovem, muito empenhada, muito talentosa, cheia de vontade de crescer e sempre disponível para contribuir para o funcionamento global do serviço. Isso é, para mim, o mais importante", sublinha a Dr.ª Olinda Marques.

Na rúbrica "Fora do Consultório", fomos conhecer melhor a Dr.ª Sílvia Saraiva por detrás da bata branca. Amante do desporto e da Natureza, a endocrinologista descobriu a montanha aos 19 anos e, desde então, fez da subida aos mais altos picos do mundo uma das suas maiores ambições.

Das várias subidas que já realizou, destaca uma memória particularmente marcante no topo do Elbrus, a montanha mais alta da Europa, "é tão bonito, tão pacífico, tão maravilhoso que para mim era isso: estar perto de alguma coisa divina".

A paixão foi crescendo e, em algumas das suas aventuras, conseguiu levar consigo os seus filhos. Aliás, conseguiu até criar laços estreitos entre este seu hobby e a sua profissão.

Ao longo dos anos, liderou grupos de doentes diabéticos em algumas das mais emblemáticas montanhas do mundo, entre as quais o Monte Branco, o Elbrus, o Quilimanjaro e o Aconcágua. "Já subi as principais montanhas do mundo com diabéticos", afirma com orgulho.

A Dr.ª Sílvia Saraiva partilha com a MeetEndo alguns episódios mais marcantes das suas caminhadas na montanha e descreve esta sua missão de mostrar ao mundo que a diabetes não é impedimento para atingir o topo

Equipa do Serviço de Endocrinologia da ULS de Braga
Endocrinologia somos nós

De um médico a uma equipa de 15 especialistas

A evolução da Endocrinologia na ULS de Braga

A história da Endocrinologia no hospital público em Braga começou com um médico sozinho: em 1981, o Dr. Altino Frias chegou ao antigo Hospital de S. Marcos, no centro da cidade, inaugurando uma resposta que, durante 14 anos, assegurou de forma isolada. Mais de quatro décadas depois, esse percurso individual deu lugar, na ULS de Braga, a um serviço diferenciado, com 15 especialistas, idoneidade formativa total, forte ligação ao ensino e à investigação e uma área de influência que ultrapassa um milhão de pessoas.

"O Dr. Altino Frias, que viria a ser o diretor de serviço até se reformar, em 2016, trabalhou sozinho durante 14 anos, ainda no antigo Hospital de S. Marcos", começa por recordar a Dr.ª Olinda Marques, atual diretora do serviço. A chegada da endocrinologista ao hospital, em 1995, juntamente com a Dr.ª Maria do Carmo Cruz, marcou um ponto de viragem: "nessa altura, começámos a impulsionar o serviço. Fizemos uma reformulação na consulta externa e, sobretudo, virámo-nos para quem eram os nossos principais destinatários: os colegas de Medicina Geral e Familiar".

Um serviço diferenciado, com 15 especialistas, idoneidade formativa total, forte ligação ao ensino e à investigação, e uma área de influência que ultrapassa um milhão de pessoas

Seguiu-se um período que a Dr.ª Olinda Marques descreve como "muito intenso, muito diversificado e muito importante para a história do serviço", marcado pela realização de várias sessões de formação dirigidas aos Cuidados de Saúde Primários com o objetivo de dar a conhecer a diferenciação da resposta prestada. Foi também nessa fase que começou a consolidar-se uma equipa multidisciplinar. "Foi uma época áurea, em que se formou uma equipa de Enfermagem específica para o serviço, à qual demos formação. Juntamente com isso, começámos também a ter nutricionistas", acrescenta.

Mais tarde, em 2011, a mudança para o Hospital de Braga representou uma nova etapa de crescimento. Sob a gestão de uma parceria público-privada, não foi apenas a Endocrinologia a expandir-se, mas toda a estrutura hospitalar, com reforço de equipas e criação de novas valências. De acordo com a diretora, nesta fase, "houve um crescimento não apenas do serviço, mas de todo o hospital, em termos de médicos, enfermeiros, auxiliares e outros técnicos fundamentais para o funcionamento, além da criação de novos serviços, como a Nefrologia".

A Dr.ª Vera Fernandes recorda que, precisamente neste ano de 2011, quando iniciou aqui o seu internato, encontrou um serviço ainda muito pequeno, com apenas quatro especialistas. Relembra que este "foi um desafio muito interessante. Depois de um intervalo grande sem internos, a nossa entrada permitiu uma maior dinamização do serviço e começar a discutir mais casos". Na altura, a reduzida dimensão acabou por dar também mais oportunidades aos internos: "o trabalho era muito e rapidamente começamos a fazer consultas de forma autónoma, a estar mais ativos. Acho que foi bom para o nosso crescimento e também, obviamente, para o do serviço".

Atualmente com 15 especialistas e uma área de abrangência de 1,2 milhões de pessoas, o cenário do serviço de Endocrinologia da ULS de Braga é substancialmente diferente. O aumento da equipa acompanhou a diversificação da atividade clínica, com a criação e consolidação de consultas diferenciadas em várias áreas da Endocrinologia.

Retrato de Dr.ª Vera Fernandes
Dr.ª Vera Fernandes

Consultas diferenciadas

A consulta de patologia endócrina na gravidez é coordenada desde o início pela Dr.ª Maria Lopes Pereira, cuja atividade clínica e investigação se têm centrado nesta área.

Durante muitos anos assegurada apenas pela especialista, que entrou no serviço em 2003, esta consulta envolve atualmente quatro elementos da equipa. Embora funcione numa lógica multidisciplinar, a médica reconhece que o modelo ideal passaria por uma articulação ainda mais próxima com a Obstetrícia. "É uma valência que representa um desafio muito grande para o serviço, consumindo várias horas", sublinha, antecipando que a procura tenderá a aumentar, num contexto de maternidade mais tardia e uma maior prevalência da obesidade.

Também dedicada a esta área, a Dr.ª Catarina Matos defende a criação de uma Clínica da Grávida, onde a consulta possa decorrer em conjunto com a Obstetrícia, com enfermeiras especializadas e com a Nutrição: "assim, todo o trabalho poderia ser mais facilitado e, de certeza, prestaríamos um melhor serviço às doentes".

Outra área com forte expressão no serviço é o tratamento da obesidade. "Dentro desta patologia, temos a avaliação dos doentes com obesidade numa perspetiva para tratamento farmacológico, uma consulta multidisciplinar – com a cirurgia – para avaliação dos candidatos à cirurgia bariátrica e o seguimento pós-cirúrgico", explica a Dr.ª Olinda Marques.

A Dr.ª Bárbara Araújo dedica parte da sua atividade a esta valência e, neste campo, a endocrinologista refere que a maior dificuldade que sente é o facto de trabalharem "individualmente", pois "gostaria que esta consulta fosse multidisciplinar e que envolvesse a Nutrição, eventualmente até o apoio da Medicina Física e Reabilitação. Sabemos, hoje em dia, que para tratarmos bem a obesidade, idealmente devemos ter um apoio multidisciplinar".

A Dr.ª Sara Esteves Ferreira partilha da mesma visão: "nós, como endocrinologistas, nunca abordamos só uma componente da obesidade, mas quanto mais multidisciplinar for o tratamento e a abordagem à pessoa com obesidade, maior vai ser o sucesso do tratamento, sendo esta uma doença muito complexa que tem várias dimensões. Temos que tentar atuar ao máximo nas diferentes dimensões para conseguirmos ter o maior sucesso possível no tratamento". Esta multidisciplinaridade está nos planos para o futuro do serviço, revela a endocrinologista.

Criada em 2022, a consulta de tumores neuroendócrinos nasceu para responder a um conjunto de patologias raras que, até então, estavam dispersas por diferentes consultas e especialidades dentro do hospital. "Estamos a falar de neoplasias neuroendócrinas, como feocromocitomas e paragangliomas, que muitas vezes têm uma associação genética e familiar. Sendo tumores da área da Endocrinologia, achámos que fazia sentido criar uma consulta para agregar estes doentes, mas também para rastrear familiares precocemente e diagnosticar esses tumores mais cedo", explica a Dr.ª Maria Joana Santos, coordenadora desta consulta.

Desde agosto de 2022 no serviço, a Dr.ª Joana Maciel divide a sua atividade entre a Endocrinologia Geral, a Diabetes Tipo 1, a consulta de tumores neuroendócrinos, a consulta conjunta de tiroide (dedicada ao acompanhamento de doentes com cancro da tiroide) e a realização de biópsias da tiroide. No âmbito da oncologia endócrina, a especialista identifica como principal desafio a complexidade clínica dos casos que acompanha: "sobretudo, tentar dar sempre aos doentes o melhor tratamento e as melhores respostas", refere, sublinhando a importância da articulação constante com outras especialidades. A evolução da resposta do Hospital de Braga nesta área é também digna de nota pela Dr.ª Joana Maciel pois, atualmente, já têm "capacidade para realizar tratamentos sistémicos que anteriormente obrigavam à referenciação para o Porto".

Entre os projetos mais recentes do serviço está a criação da consulta de rastreio da diabetes tipo 1, um domínio que reflete a aposta na inovação e na intervenção precoce. A consulta é coordenada pela Dr.ª Diana Borges Duarte, no serviço desde 2023. O objetivo, explica a endocrinologista, passa por identificar pessoas em risco antes do aparecimento dos sintomas. "Dessa forma, podemos intervir mais precocemente, não só com os fármacos que já existem e que estão em desenvolvimento, como também com a realização de ensaios clínicos", esclarece.

Entre os projetos mais recentes do serviço está a criação da consulta de rastreio da diabetes tipo 1, um domínio que reflete a aposta na inovação e na intervenção precoce

Também investigadora principal do serviço no grupo INNODIA, consórcio internacional dedicado à inovação na diabetes tipo 1, a endocrinologista adianta que 2026 marcará o arranque de dois ensaios clínicos com terapêuticas dirigidas à fase pré-sintomática da doença: "as expectativas são bastante boas. Queremos estar na linha da frente da inovação e do cuidado das pessoas com diabetes tipo 1, ainda antes de chegarem ao diagnóstico."

Também na área da diabetes tipo 1, a consulta multidisciplinar de aplicação de sistemas de perfusão subcutânea contínua de insulina está a cargo da Dr.ª Marta Alves, no serviço desde 2011. A especialista assistiu à transformação da Endocrinologia em Braga e fala num crescimento muito significativo desde que entrou. Na vertente que acompanha mais de perto, os números traduzem essa evolução: dos mais de mil doentes com diabetes tipo 1 seguidos pelo serviço, 32% utilizam atualmente bombas infusoras de insulina e, entre estes, 85% recorrem já a sistemas híbridos. Estes números colocam o Hospital de Braga entre os maiores centros nacionais nesta área.

"Sendo esta uma forma de melhorar significativamente a qualidade de vida dos doentes, o nosso objetivo é integrar neste grupo todos aqueles que possam beneficiar deste tratamento", sublinha. Para a endocrinologista, a ambição passa por continuar a acompanhar a evolução tecnológica e expandir o acesso: "queremos estar na linha da frente e fazer crescer este número todos os anos."

Além da vertente assistencial

A atividade do serviço de Endocrinologia da ULS de Braga vai além da resposta assistencial. O ensino e a investigação fazem também parte da identidade do serviço, numa ligação que se foi consolidando ao longo dos anos com a Escola de Medicina da Universidade do Minho e com o Centro Clínico Académico.

Segundo a Dr.ª Olinda Marques, a componente formativa iniciou ainda no antigo Hospital de S. Marcos, com o envolvimento no ensino pré-graduado da Endocrinologia: "começámos a colaborar com a Escola de Medicina da Universidade do Minho através de seminários e da componente de residência hospitalar, permitindo aos alunos contactarem não só com a vertente teórica, mas também com a prática clínica", recorda.

O ensino e a investigação fazem também parte da identidade do serviço

Essa ligação mantém-se até hoje e é reforçada pela participação ativa dos elementos do serviço na formação académica. A Dr.ª Adriana Lages, assistente convidada da Escola de Medicina, sublinha que esta colaboração é transversal à equipa: "todos os elementos do serviço acompanham alunos, orientam projetos e colaboram na formação médica. Temos orgulho em ver o serviço crescer não apenas na diferenciação clínica, mas também na vertente académica."

A investigação tem vindo, igualmente, a assumir um peso crescente. A diretora do serviço destaca a colaboração com o Centro Clínico Académico – uma parceria público-privada entre o hospital, a CUF e a Universidade do Minho e uma estrutura de referência nacional. Esta "é uma dimensão que queremos reforçar cada vez mais", afirma a Dr.ª Olinda Marques, explicando que a integração nesta estrutura tem permitido o envolvimento contínuo da equipa em estudos clínicos e investigação aplicada, com distribuição da coordenação científica entre diferentes especialistas do serviço. Para além dos projetos promovidos externamente, há também investigação de iniciativa própria: "quando existe um médico no serviço que tem um projeto para propor, é apresentado ao Centro Clínico Académico que o avalia e, se for aceite, acompanha depois todo o seu desenvolvimento".

Formar novos endocrinologistas

A vertente formativa é hoje uma das marcas do serviço. Desde 2014, a Endocrinologia da ULS de Braga dispõe de idoneidade total formativa, recebendo anualmente novos internos. Antes disso, ainda no antigo Hospital de S. Marcos, tinha idoneidade parcial e foi nesse contexto que, em 2007, a Dr.ª Catarina Matos se tornou a primeira interna do serviço. A endocrinologista lembra essa fase como "uma experiência enriquecedora", marcada pela diversidade de aprendizagem. "Tínhamos um grande leque de patologias e de doentes, o que permitia aprender de forma muito diversificada com os diferentes especialistas", recorda.

Retrato de Dr.ª Rita Ribeiro
Dr.ª Rita Ribeiro

Hoje, a experiência mantém-se exigente, mas num contexto de maior dimensão e diferenciação. A Dr.ª Rita Ribeiro, atualmente no segundo ano do internato, destaca o ambiente de proximidade dentro da equipa: "enquanto internos, estamos muito à vontade no serviço para expor dúvidas, discutir casos e participar ativamente na atividade do serviço, seja assistencial ou científica."

A vertente formativa é hoje uma das marcas do serviço. Desde 2014, a Endocrinologia da ULS de Braga dispõe de idoneidade total formativa
Retrato de Dr. Nuno Faria
Dr. Nuno Faria

Também no segundo ano, o Dr. Nuno Faria sublinha o dinamismo do serviço como um dos principais atrativos: "é um serviço em crescimento, com especialistas jovens e dinâmicos que procuram ajudar os internos e criar novas consultas, novos trabalhos. Há sempre muita coisa a fazer e novos projetos a surgirem."

Retrato de Dr. Valentim Lopes
Dr. Valentim Lopes

Já no quinto ano do internato, o Dr. Valentim Lopes descreve a experiência como "trabalhosa". A maior autonomia que é dada na consulta externa a partir do segundo ano do internato "implica que estejamos preparados desde cedo, com o nosso papel a não ser apenas assistir à consulta", refere. Mas a exigência vai além da prática assistencial: "do ponto de vista curricular, a Endocrinologia é uma especialidade que requer um percurso robusto, com publicação de artigos científicos, comunicações orais e posters. Existe, de certo modo, uma pressão positiva do serviço para tal". O interno confessa ainda que, na altura de escolher o hospital, esta foi a sua primeira escolha, mesmo não sendo da cidade, precisamente pela dimensão e diferenciação do serviço. "A grande variabilidade de patologias e o elevado número de doentes permitem um contacto abrangente com praticamente todo o espectro da Endocrinologia, incluindo patologias raras. Esta diferenciação reflete-se, igualmente, nas várias consultas especializadas – da hipófise aos tumores neuroendócrinos, passando pela consulta dedicada a pessoas transgénero – proporcionando ao interno uma experiência formativa particularmente rica e diversificada", conclui.

Retrato de Dr.ª Juliana Sá
Dr.ª Juliana Sá

Recém-especialista, após concluir o internato em outubro de 2025, a Dr.ª Juliana Sá faz um balanço claramente positivo deste período destacando não apenas o apoio clínico diário, mas também a aposta na formação científica: “fomos sempre muito bem recebidos. Tivemos apoio na discussão de casos, na consulta, nos trabalhos e também no crescimento científico. O serviço faz um esforço para garantir inscrições e acesso a congressos, o que é muito positivo”.

A importância da equipa

Apesar de todo este crescimento e diferenciação, a Dr.ª Olinda Marques não tem dúvidas de que a principal mais-valia do serviço está na equipa. "Tenho uma equipa muito jovem, muito empenhada, muito talentosa, cheia de vontade de crescer e sempre disponível para contribuir para o funcionamento global do serviço. Isso é, para mim, o mais importante", afirma, assumindo-se muito feliz com a equipa que lidera.

Esta ideia é partilhada pela Dr.ª Catarina Machado. Desde 2020 na equipa e responsável pela consulta multidisciplinar de pé diabético, a endocrinologista destaca a diversidade de experiências trazidas pelos profissionais provenientes de diferentes instituições. "O facto de termos pessoas vindas de outros hospitais permitiu trazer know-how de diferentes realidades do país e isso ajudou-nos a construir um serviço muito diferenciado nas várias áreas da Endocrinologia", sublinha. Para a especialista, essa combinação entre experiência, especialização e motivação tem sido determinante para responder a uma procura crescente por cuidados nesta área.

“Queremos sempre mais. Não somos uma equipa acomodada”

Também a Dr.ª Diana Borges Duarte identifica na cultura da equipa um dos principais fatores distintivos do serviço: "somos uma equipa muito jovem, muito ambiciosa e muito dedicada ao SNS. Acima de tudo, o nosso foco está no cuidado ao doente e, quando isso é transversal à equipa, a resposta torna-se naturalmente mais forte", afirma. A endocrinologista destaca ainda uma característica comum entre os colegas: "queremos sempre mais. Não somos uma equipa acomodada."

Jornadas de Endocrinologia e Diabetes de Braga

Evento de referência para a especialidade, a Dr.ª Olinda Marques explica que a origem das Jornadas de Endocrinologia e Diabetes de Braga remonta a um período em que os serviços de Endocrinologia de Braga e Viana do Castelo mantinham uma relação particularmente próxima. Na altura, o Hospital de Viana tinha como único endocrinologista o Dr. José Teixeira, à semelhança do que acontecia em Braga, com o Dr. Altino Frias.

"Achámos que seria uma mais-valia para o desenvolvimento da Endocrinologia na região Minho", recorda a diretora do serviço. As primeiras jornadas realizaram-se em 2001 e, durante vários anos, decorreram em formato alternado entre Braga e Viana do Castelo. A iniciativa manteve-se de forma regular até à interrupção forçada pela pandemia.

As jornadas são importantes para divulgar o que fazemos, estabelecer ligações e perceber quais são as necessidades no terreno

Hoje, realizadas de dois em dois anos e organizadas exclusivamente pelo serviço de Braga, as jornadas continuam a assumir um papel estratégico para o serviço: "são muito importantes para divulgar o que fazemos, para mostrar aos colegas o que podem esperar da nossa resposta, estabelecer ligações, discutir casos mais complexos ou dificuldades de acesso e perceber quais são as necessidades no terreno", salienta a Dr.ª Olinda Marques.

Desafios inerentes ao crescimento

Apesar do crescimento e da diferenciação alcançados, os desafios mantêm-se. Para a Dr.ª Olinda Marques, os principais constrangimentos do serviço não estão relacionados com a prática clínica, mas com as condições estruturais que suportam essa atividade: "o nosso principal problema - que, de resto, é transversal ao hospital e a outras especialidades - é o espaço físico e o apoio de que necessitamos".

O crescimento da equipa e das valências do serviço, sublinha, não foi acompanhado pelas condições físicas necessárias para responder a essa evolução, "arranjamos muitas estratégias, mas isso continua a ser insuficiente para aquilo de que precisamos."

Os principais constrangimentos do serviço não estão relacionados com a prática clínica, mas com as condições estruturais que suportam essa atividade

Também para a Dr.ª Catarina Matos, os principais desafios que aponta ao trabalho no serviço são referentes ao espaço físico que têm disponível: "o nosso trabalho seria mais enriquecedor para os profissionais e melhor para os doentes se tivéssemos um espaço mais adequado às necessidades do ambulatório atual, onde enfermeiros, administrativos, auxiliares, nutricionistas e psicólogos pudessem trabalhar de forma mais integrada", defende.

A diretora aponta ainda limitações ao nível dos recursos de apoio, nomeadamente da equipa de enfermagem, o que acaba por sobrecarregar a atividade médica. Muitos atos que poderiam ser assegurados por outros profissionais acabam por recair sobre os médicos, condicionando a organização da resposta assistencial.

A Dr.ª Maria Lopes Pereira nota outro desafio inerente ao crescimento do serviço: "somos, provavelmente, o segundo ou terceiro maior serviço do país e damos resposta a uma área muito grande. Com o encerramento de alguns serviços no distrito de Braga, nomeadamente em Barcelos, houve um aumento muito significativo da procura".

A acessibilidade continua, por isso, a ser uma das principais preocupações da equipa, mas, ainda assim, a especialista sublinha o esforço desenvolvido para reduzir tempos de espera: "chegámos a ter listas de espera próximas dos três anos. Hoje, conseguimos reduzi-las para menos de um ano, o que exigiu um trabalho muito grande desde a triagem até à gestão do número de primeiras consultas".

Crescer continua nos planos

Para a Dr.ª Olinda Marques o crescimento do serviço continua a fazer parte dos planos e cabe à equipa acompanhar os desenvolvimentos que a própria especialidade tem tido.

"Há um interesse muito grande em acompanhar esse desenvolvimento e vemos isso na participação ativa nas atividades diferenciadas que existem, por exemplo, dentro da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM)." Também para a Dr.ª Adriana Lages, esta articulação com a SPEDM assume um papel estruturante, não apenas pelo reconhecimento científico, mas também pela proximidade às áreas mais inovadoras da especialidade: "temos vários elementos ligados a diferentes grupos de estudo, com funções de coordenação e participação ativa e, no meu caso, também na direção da sociedade. Isso estreita os laços com a comunidade científica, que é uma pedra basilar da nossa atividade clínica."

O crescimento do serviço continua a fazer parte dos planos e cabe à equipa acompanhar os desenvolvimentos que a própria especialidade tem tido

A Dr.ª Juliana Sá acredita que, apesar da forte diferenciação já alcançada, continua a existir margem para crescer. Tendo acompanhado de perto a evolução recente do serviço, destaca a transformação registada nos últimos anos: "desde que comecei, o serviço cresceu imenso, quer em dimensão, quer no número de consultas específicas e diferenciadas".

Na sua perspetiva, o futuro poderá passar pela criação de novas áreas de subespecialização, nomeadamente consultas dedicadas à doença óssea, ao metabolismo do cálcio ou ao acompanhamento de endocrinopatias associadas a tratamentos oncológicos - uma área que considera particularmente relevante tendo em conta a presença da Oncologia no hospital.

Já a Dr.ª Vera Fernandes acredita que o caminho passa por aprofundar a multidisciplinaridade e reforçar a articulação com os cuidados de saúde primários. "Já trabalhamos com outros especialistas, mas ainda temos caminho a fazer. Uma maior proximidade com os cuidados de saúde primários permitiria discutir melhor os doentes, melhorar a qualidade da resposta e, idealmente, torná-la mais atempada."

Neste aspeto, a diretora do serviço destaca também a importância dos internos de MGF que realizam estágios no serviço, assumindo-se este como um importante elo de ligação e aproximação entre os cuidados de saúde primários e os cuidados hospitalares.

Tudo isto destaca que mais de quatro décadas depois da chegada do primeiro endocrinologista, o serviço continua a crescer, impulsionado por uma equipa que alia diferenciação clínica, ensino, investigação e inovação.

Entre os desafios que persistem e os projetos que se desenham para o futuro, mantém-se a mesma ambição que marcou a sua evolução ao longo dos anos: continuar a responder cada vez melhor às necessidades dos doentes. Para a Dr.ª Olinda Marques, o caminho é claro: "crescer está no plano. O limite ainda não sabemos onde está".

Equipa do Serviço de Endocrinologia da ULS de Braga
Em vídeo

O serviço pela voz da diretora

A perspetiva da equipa

Fora do consultório

Dr.ª Sílvia Saraiva: levar a diabetes ao topo da montanha

A paixão da Dr.ª Sílvia Saraiva pela montanha surgiu aos 19 anos e nunca mais a abandonou. O que começou como um hobby acabou por cruzar-se com a sua atividade como endocrinologista, levando-a a organizar expedições pioneiras para pessoas com diabetes e a demonstrar que a doença não tem de ser um obstáculo.

Começando por recordar a escolha da especialidade, a Dr.ª Sílvia Saraiva explica que procurava uma área que lhe permitisse olhar para o doente de uma forma integrada e que encontrou essa resposta na Endocrinologia. Para si, a especialidade reúne o melhor de dois mundos: a proximidade ao doente e o interesse pela ciência. “É fantástica para quem gosta do doente como um todo e que, ao mesmo tempo, tem ‘o bichinho’ da ciência e da fisiologia das coisas”, afirma, sublinhando que essa combinação continua a ser uma das razões pelas quais se sente realizada profissionalmente.

Dr.ª Sílvia Saraiva no consultório
Dr.ª Sílvia Saraiva

Juntar desporto e diabetes

Curiosamente, a diabetes não foi, numa primeira fase, a área da especialidade que mais a entusiasmou – “era a parte chata da Endocrinologia”, confidencia. Contudo, a responsabilidade associada ao acompanhamento destes doentes levou-a a aprofundar os conhecimentos e a dedicar a esta doença cada vez mais atenção. Com o tempo, o que começou por ser um desafio, transformou-se numa das áreas que mais prazer lhe proporcionava, pois “quanto mais conhecemos uma área e mais confiança ganhamos na sua abordagem, maior tende a ser o interesse que ela desperta”.

O plano de juntar desporto e diabetes surge durante o mestrado em Medicina Desportiva, quando um colega lhe sugeriu que procurasse integrar as duas áreas. E foi assim que nasceram os primeiros campos de férias para jovens diabéticos e o início da missão de provar que os diabéticos podem fazer tudo o que as outras pessoas fazem.

A constatação do impacto dos laços criados – “percebi que os jovens se tinham tornado grupos de amigos e esses grupos de amigos eram grupos de entreajuda” – levou-a a dar o passo seguinte: criar uma estrutura que permitisse potenciar esse espírito de comunidade. “Foi daí que surgiu a ideia de fundar a Associação de Jovens Diabéticos de Portugal”, recorda a Dr.ª Sílvia Saraiva.

O fascínio pelas montanhas

Dr.ª Sílvia Saraiva numa expedição de montanha

Relativamente ao seu hobby, a médica endocrinologista, que sempre foi desportista e uma amante incondicional da Natureza, relembra que “aos 19 anos descobri a montanha e nunca mais a larguei”. Das várias subidas que já realizou, destaca uma memória particularmente marcante no topo do Elbrus, a montanha mais alta da Europa.

Apesar de se assumir como agnóstica, lembra que perante a imponência da paisagem, naquele momento, pensou nunca se ter sentido tão perto de Deus: “é tão bonito, tão pacífico, tão maravilhoso que para mim era isso: estar perto de alguma coisa divina”. Ao longo dos anos, procurou também transmitir esse gosto aos filhos que a acompanharam em algumas aventuras.

Conjugação de duas paixões: Medicina e montanha

Foi da conjugação de duas grandes paixões, a Medicina e a montanha, que nasceram algumas das iniciativas mais marcantes do seu percurso. O objetivo era simples: mostrar que a diabetes não é uma doença incapacitante.

Ao longo dos anos, liderou grupos de doentes diabéticos em algumas das mais emblemáticas montanhas do mundo, entre as quais o Monte Branco, o Elbrus, o Quilimanjaro e o Aconcágua. “Já subi as principais montanhas do mundo com diabéticos”, afirma com orgulho.

Lembra que por detrás destas conquistas existia um enorme trabalho de preparação. A necessidade de ajustar doses de insulina, planear a alimentação e garantir a conservação de todo o material médico obrigava a um planeamento rigoroso, sobretudo numa época em que ainda não existiam sistemas de monitorização contínua da glicose. “No meio do gelo parámos, tirámos a luva, rápido, para que não congelem nem aparelhos, nem as mãos, picámos o dedo e confirmámos se continua tudo bem. E, no meio disto, tínhamos também que ter cuidado com a conservação da insulina que perde as suas características perto do ponto de congelação e depois já não as recupera”.

A experiência adquirida nestas expedições levou mesmo à produção de conhecimento científico, com um trabalho apresentado num congresso internacional: “em esforços máximos e muito prolongados, em vez de descermos as doses de insulina, tínhamos que aumentar muito os hidratos de carbono e, por vezes, aumentar também as doses de insulina. Era uma coisa fora do imaginário na diabetes”.

Fazer o que nenhum diabético tinha feito

A Dr.ª Sílvia Saraiva recorda um episódio durante a expedição ao Aconcágua (Argentina) no qual, ao passar pelo campo-base, tendo explicado que acompanhava um grupo de diabéticos tipo 1, insulinodependentes, e que pretendiam subir pela Rota dos Polacos Transversal (um percurso mais longo e exigente do que o habitual), os responsáveis locais lhe disseram que não o poderiam fazer e que nunca nenhum grupo de pessoas com diabetes tipo 1 tinha realizado a subida por aquela via. “Nunca significa que alguma vez terá de ser a primeira vez”, respondeu a médica endocrinologista, enumerando, na altura, as várias experiências que já tinha em montanha com estes grupos, tendo assim conseguido autorização para avançar.

A subida exigiu criatividade e adaptação constante: “para evitar que a insulina congelasse, transportávamo-la junto ao corpo, parecíamos pistoleiros”, brinca. A alimentação era igualmente planeada ao detalhe, com grandes quantidades de hidratos de carbono para responder às exigências físicas do desafio: “lembro-me que o nosso guia estava completamente siderado com a quantidade. Ele dizia: mas vocês não são diabéticos e vão comer tantos hidratos assim?”. No final, “fizemos o Aconcágua e foi um sucesso. Porque não foi só fazer o Aconcágua, foi fazer por uma via mais difícil, que nunca nenhum diabético tipo 1 tinha feito”.

A diabetes não define os limites

Dr.ª Sílvia Saraiva num trilho de montanha

Nestas atividades havia um desafio adicional apontado pela especialista: tinha de construir projetos para os quais não existiam referências. Muitas das iniciativas que desenvolveu nunca tinham sido realizadas em Portugal e algumas eram mesmo pioneiras a nível internacional.

“Era elaborar um projeto sem guião e, por isso, sem ninguém a dar-me conselhos, porque nunca ninguém o tinha feito. Levava meses a pensar em todos os pormenores”, recorda a médica endocrinologista.

Destaca ainda que “o trabalho de organização, não tendo um guião para seguir, era stressante. Mas, por outro lado, era um gozo enorme pensar que, se conseguíssemos, íamos desmistificar ainda mais um bocadinho a diabetes”.

E, precisamente neste sentido, lembra que, após uma das expedições ao Quilimanjaro, uma jovem com diabetes lhe contou que um vizinho, ao ver uma reportagem sobre a subida, lhe disse: “então vocês, os diabéticos, afinal podem fazer tudo, até podem subir montanhas!” Esta foi precisamente a mensagem que procurou transmitir com todas estas subidas. O objetivo nunca foi apenas levar um grupo de jovens até ao topo de uma montanha, era mostrar à sociedade que a diabetes não define os limites de uma pessoa: “escolhemos as montanhas como fórmula de superação, mas há muitas outras coisas que podem ser feitas pelo diabético. Assim ele queira e aprenda a gerir a diabetes em circunstâncias diferentes”.

As lições da montanha

A mesma convicção que a levou a subir algumas das mais altas montanhas do mundo acompanha-a também na consulta. A montanha não é apenas um espaço de aventura ou superação física, é um hobby que molda a sua personalidade e influencia a forma como encara os desafios profissionais. “Para estar na montanha, precisamos ser resilientes, ser calmos quando há uma adversidade, não entrar em pânico. E como profissional é assim que eu tenho que ser: arrojada e segura ao mesmo tempo. Resiliente e, simultaneamente, tolerante comigo própria para perceber que se estou cansada, posso parar um pouco, mas não vou desistir”. “Torna-me uma profissional mais resiliente”, conclui.

Assista à entrevista com a Dr.ª Sílvia Saraiva

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